E agora?

É necessário e urgente uma reforma política que acabe com essa anormalidade de dezenas de partidos, que na maioria das vezes servem apenas para se venderem à melhor oferta.

 

Manifestante protesta na av. Paulista em dezembro de 2016.
Manifestante protesta na av. Paulista em dezembro de 2016. MIGUEL SCHINCARIOL AFP

 

O procurador-geral da República, Rodrigo Janot, entregou a caixa da Pandora com os nomes de centenas de políticos contra os quais pede a abertura de processo criminal por corrupção. Embora ainda não saibamos oficialmente seus nomes, não é difícil adivinhar que o furacão irá sacudir todos os partidos e a todas as ideologias. A sociedade brasileira, como no filme de Pedro Almodóvar, está “à beira de um ataque de nervos” e se pergunta, entre envergonhada e incrédula: “E agora?”.

O que vai acontecer no Brasil? Como irá se comportar a opinião pública? E, sobretudo, o que fazer depois que a classe política ficou acéfala, sem, além do mais, que se vislumbrem no horizonte soluções viáveis, capazes de encaminhar a política hoje sentada no banco dos réus? Difícil fazer profecias neste momento. Algo, entretanto, começa a parecer claro: sem fazer meia dúzia de reformas, o perigo é não só que tudo fique igual, como na Itália, mas inclusive que piore, já que a política brasileira arrasta o peso de uma história onde os valores democráticos são ainda jovens e frágeis.

É necessário e urgente uma reforma política que acabe com essa anormalidade de dezenas de partidos, que na maioria das vezes servem apenas para se venderem à melhor oferta. Urge pensar na possibilidade de uma reforma do Estado, possivelmente acabando com a Presidência da República para dar lugar, como nas democracias modernas, ao parlamentarismo com a figura de um primeiro-ministro. Recordo que a Itália nunca foi tão próspera econômica e culturalmente como na época em que os Governos duravam uma média de apenas dez meses. Eram a sociedade, o empresariado, a cultura, a classe operária e até a arte que, com sua força criativa, mantinham o país à tona.

O Brasil precisa acabar com essa farra das campanhas políticas milionárias, um esbanjamento inútil e superado pelas novas tecnologias da comunicação. As campanhas hoje se fazem nas redes, mais do que na rua, com toda a sua parafernália de ruídos e lixo. É necessário acabar com a impunidade propiciada pelo foro privilegiado dos políticos, que perdeu todo o seu sentido original de assegurar a liberdade de expressão para se transformar numa couraça contra a Justiça. É preciso acabar com os partidos sem ideologia nem programas alternativos, com a reeleição a cargos públicos, com os privilégios e benesses dos que desejam fazer política, o que deve ser um serviço à sociedade, e não um seguro de vida e de impunidade. E, por que não?, uma mudança de Constituição, para adaptá-la àquilo que mudou no mundo e no Brasil desde a sua promulgação.

A grande pergunta, a do milhão, é quem seria capaz atualmente, com autoridade moral e liderança intelectual, de levar a cabo essas reformas: os políticos acusados ou condenados por corrupção? Os juízes? Os movimentos sociais? A pressão de uma opinião pública hoje salomonicamente dividida entre gregos e troianos e, ao que parece, sem esperanças de reconciliação? Talvez nenhum desses setores possa sozinho resolver a charada. Talvez a única possibilidade de esperança consista numa milagrosa conscientização dos que sobrarem vivos na Arca de Noé, depois do castigo do dilúvio. Tomara.

Fonte:EL PAÍS